quinta-feira, 19 de março de 2009

Morte presenteada

(Museu Fundação Serralves - Cristopher Wool, Porto 08 )

Minhas mãos tresandam a morte.
Odor nauseabundo que desconcerta os meus sentidos atentos aos prenúncios agoniantes do fim,em mim emudecidos até à inevitabilidade insustentável.

Perdoa-me!

Por ter sido minha pretensão manter acesa a última brasa da outrora fogueira.
Por ter tentado dar fôlego a uma relação moribunda cujo cadáver pensava, ingenuamente, ser ainda possível ressuscitar!

Sucumbi!

Como uma máquina de suporte de vida no fim do exercício das suas funções.
Mantive-NOS vivos durante algum tempo, apesar da inércia que se me opunha até que, vencida pelo desânimo, desesperança e fracasso, me deitei ao teu lado, de costas voltadas para ti.

Permaneço assim, morbidamente apática, e permito-NOS morrer, presenteando-te com a tua vontade!


sexta-feira, 13 de março de 2009

Pausa mutante

(Exposição Museu Fundação Serralves: Munõz: Uma Retrospectiva, Porto 08)

Respeitando as cortesias habituais de quem se cruza pela primeira vez no nosso caminho, a pausa entrou com autorização prévia, num passo firme camuflado pela leveza do corpo alado. Envolta numa áurea estratégica de marketing, transmitia confiança e qualidade a preço acessível, o que em tempo de crise se traduz numa oportunidade a não perder.

Prometia inverter o estado de inércia que há muito se pensava crónico, para além de outros benefícios que tornavam o “pacote” irrefutável. Instalou-se a pausa, a pausa instalou-se conforme as regras de “política social”. Todavia, como em todas as campanhas de publicidade, as letras em tamanho ilegível ocultavam os seus efeitos perversos – momentos de agitação profunda associada a consumação de tempo.
Paulatinamente, a pausa foi assumindo o controlo da vida. Infiltrou-se numa fenda que depressa transformou em buraco negro que suga a vitalidade.

(Des)espera-se pelo antídoto que neutralize a pausa mutante!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Vagabundo


[Foto: Museu Fundação Serralves - Munõz: Uma retrospectiva, Dez08]
Meu ser solitário, errante, vagueia nas ruas estreitas da cidade que escolhi para acolher o meu corpo escanzelado, enfermo. Viciado num líquido tingido de vermelho, o qual transporto numa garrafa camuflada no interior de um saco de papel, amachucado e desgasto pelo tempo, assim protegida de olhares indiscretos que se cruzam no meu caminho, percorro a rua sem erguer a cabeça, sem enfrentar as pessoas que, apesar do avançar das horas, ainda persistem no gélido corredor da morte, a rua, a minha casa.



Evito-as. Sinto, contudo, aqueles que, num acto de desafio, me seguem com o olhar a transbordar daquela expressão enojada, um misto de gozo e inquietação. Outros, os receosos, parecem não dar pela minha presença, ausente. Dos seus corpos emana a indiferença e um odor fétido a medo. Consigo senti-lo a penetrar nas minhas narinas. O cheiro das partículas aquecidas intensifica-se, enquanto se movimentam pelos canais arteriais, invadidos por um afluxo de sangue, instantâneo, em resposta ao aumento dos meus níveis de prazer impondo assim maior ímpeto na corrente sanguínea que desagua, por fim, no meu coração, num movimento orgásmico e libertador.


Seus receios encontram fundamento na crença de que transporto comigo o vírus, contagioso, da minha condição de habitante da rua, passível de se transmitir com uma troca de olhares. Durante o dia, sentem-se seguros, protegidos pelos óculos escuros que constroem uma barreira intransponível. Num gesto rotineiro, esfregam sofregamente a superfície externa do acessório ocular. Com um pano impregnado de desinfectante, executam rápidos movimentos mortíferos, acreditando estarem a sufocar células do meu vírus incubadas no vidro aquecido das lentes.


De noite, porém, sentem-se vulneráveis ante o meu semblante, refugiando-se na sombra do fingimento da minha ausência…

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Mosca

(Foto: Vila Nova de Gaia - Dez08)


Sinto-me fraca!

Sem forças para me livrar da armadilha que me imobiliza a 3m do chão.
Todos os movimentos frenéticos que executei para me libertar foram em vão. Coberto de uma substância viscosa, de cheiro pestilento, que sufoca todas as tentativas de libertação, meu corpo é esmagado por uma força de natureza incógnita.

Sinto-me a decompor!

Apercebo-me que a substância que me prende, é a mesma que me consome. Demorei algum tempo a aperceber-me que o odor a putrefacção era o meu corpo em dissolução cadavérica quem o libertava. Nem mesmo a perda de um dos membros me fez suspeitar dessa fatalidade, até que o processo letal começou a atingir os meus órgãos vitais.

A respiração tornou-se irregular e penosa. Cada inspiração era interrompida por uma dor dilacerante que me fazia entrar num delírio momentâneo, durante o qual me via deitada numa superfície fria e metálica, onde o meu corpo era trespassado por uma lâmina afiada de um talhante.

Inevitavelmente, o coração foi atingido por esse processo insidioso. O batimento cardíaco lenificou. De tempo a tempo ouço uma batida, um eco distante, silencioso.

Sinto que o fim está próximo!

Não tardará muito até ceder às encruzilhadas da teia que me encarcera.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Hoje vi-te!

(Fotografia: Exposição Munõz-Uma retrospectiva [Museu Fundação Serralves, Dez08])
Hoje vi-te.

Pelo menos permanece em mim essa certeza quase dúbia. Fecho os olhos e a tua imagem surge num flash momentâneo, sem que perdure o tempo suficiente para confirmar se eras mesmo tu.
Que se dane! Seja como for, hoje vi-te!

Ias no outro lado da estrada, junto ao passeio. Envergavas um casaco escuro, jeans a condizer e aquelas sapatilhas pretas, gastas pelo uso e que teimas em continuar a calçar, por serem as tuas preferidas. Anuído pelas evidências, ainda ponderaste adquirir outras, do mesmo modelo, mas a fábrica deixou de o comercializar, por ser antiquado, démodé.
Já te tinha tentado alertar para esse facto, quando te disse que o meu avô teve um par igual no auge da sua juventude. No entanto, nenhum argumento conseguia persuadir-te a deixar de usá-las.

[Era isto que apreciava em ti! A forma como defendias as tuas ideias e convicções. Com a persistência confundida com teimosia e presunção.]

No instante em que te vi o vendaval domava o teu cabelo naturalmente desalinhado, as tuas mãos protegiam-se no interior do casaco, as tuas pernas avançavam a passo firme, enquanto eu me tentava equilibrar no tumulto dos meus pensamentos. Os mesmos que me impediram de te ver, mas não de sentir a tua presença.

Real ou imaginada?

Seja como for,hoje vi-te!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mito convertido em realidade

Um grupo de investigadores chegou à conclusão de que, afinal, é possível encontrar acesa a chama da paixão ao fim de muitos anos de relacionamento, feito que apenas congratula um em cada dez casais.
Perante este facto a RTP foi à rua e entre as entrevistas realizadas destaco uma de particular interesse concernente a um senhor de idade avançada, a quem se questionou se ainda amava a sua esposa, ao que ele respondeu, conforme esperado, afirmativamente.
A revelação que se seguiu pode, futuramente, vigorar numa daquelas listas divulgadas por revistas de "destaque cultural",
(sempre úteis: "10 sinais de que ele/a lhe anda a trair", "como o/a deixar louco/a em 10 passos") ,
sob o título "10 características que deve perscrutar no/a parceiro/a para se assegurar que a paixão se conservará em labareda fulminante por muitos anos".
Muitos de vós estarão, provavelmente, a pensar na fidelidade, naquela pessoa que revisita os nossos pensamentos...pois, enganam-se.

A sabedoria partilhada por aquele senhor, inspirada nas características da sua esposa, com quem mantém, ainda, segundo ele, acesa a chama da paixão, revela-nos que, em primeiro lugar, devemos procurar alguém "trabalhador".

[Ora, se a relaçao é para durar, é de bom grado que a outra pessoa se sustente. Numa vida inteira a sustentar alguém a única chama que deverá permancer ateada será aquela que deseja, ardentemente, calcinar o outro.]

Adicionalmente, e não menos importante, a pessoa amada deverá reunir em si as apaixonantes características de "limpa e asseada".

[Com mau cheiro, "não há amor que sempre dure, nem chama que nunca apaga".]

domingo, 28 de dezembro de 2008

60, 59, 58…3,2,1,0,-1 Feliz Ano Novo

Para quem o lema de vida é “aproveitar a vida até ao último segundo”, informa-se que o último minuto de 2008 terá mais um segundo que o habitual, o denominado “segundo intervalar”, e que tem como objectivo corrigir uma ligeira anomalia entre os relógios atómicos e o tempo astronómico baseado na rotação do planeta terrestre.
Futuramente, existe até a possibilidade do último dia do ano vir a ter 25h, uma boa notícia para aqueles que se queixam da falta de tempo. Contudo, “não há bela sem senão” pois a ocorrer seria de 600 em 600 anos e apenas no caso da técnica do “segundo intervalar” ser abolida pela União Internacional de Telecomunicações, o que traria consequências ao nível do estatuto do meridiano de Greenwich, que deixaria de ser o local onde a hora local é exactamente igual à hora universal, e ao nível da hora oficial, que deixaria de estar ligada à rotação astronómica da Terra.
Controvérsias à parte, aproveitem ao máximo o último segundo de 2008 e o primeiro de muitos de 2009 =)