
[Foto: Museu Fundação Serralves - Munõz: Uma retrospectiva, Dez08]
Meu ser solitário, errante, vagueia nas ruas estreitas da cidade que escolhi para acolher o meu corpo escanzelado, enfermo. Viciado num líquido tingido de vermelho, o qual transporto numa garrafa camuflada no interior de um saco de papel, amachucado e desgasto pelo tempo, assim protegida de olhares indiscretos que se cruzam no meu caminho, percorro a rua sem erguer a cabeça, sem enfrentar as pessoas que, apesar do avançar das horas, ainda persistem no gélido corredor da morte, a rua, a minha casa.
Evito-as. Sinto, contudo, aqueles que, num acto de desafio, me seguem com o olhar a transbordar daquela expressão enojada, um misto de gozo e inquietação. Outros, os receosos, parecem não dar pela minha presença, ausente. Dos seus corpos emana a indiferença e um odor fétido a medo. Consigo senti-lo a penetrar nas minhas narinas. O cheiro das partículas aquecidas intensifica-se, enquanto se movimentam pelos canais arteriais, invadidos por um afluxo de sangue, instantâneo, em resposta ao aumento dos meus níveis de prazer impondo assim maior ímpeto na corrente sanguínea que desagua, por fim, no meu coração, num movimento orgásmico e libertador.
Seus receios encontram fundamento na crença de que transporto comigo o vírus, contagioso, da minha condição de habitante da rua, passível de se transmitir com uma troca de olhares. Durante o dia, sentem-se seguros, protegidos pelos óculos escuros que constroem uma barreira intransponível. Num gesto rotineiro, esfregam sofregamente a superfície externa do acessório ocular. Com um pano impregnado de desinfectante, executam rápidos movimentos mortíferos, acreditando estarem a sufocar células do meu vírus incubadas no vidro aquecido das lentes.
De noite, porém, sentem-se vulneráveis ante o meu semblante, refugiando-se na sombra do fingimento da minha ausência…