quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Mosca

(Foto: Vila Nova de Gaia - Dez08)


Sinto-me fraca!

Sem forças para me livrar da armadilha que me imobiliza a 3m do chão.
Todos os movimentos frenéticos que executei para me libertar foram em vão. Coberto de uma substância viscosa, de cheiro pestilento, que sufoca todas as tentativas de libertação, meu corpo é esmagado por uma força de natureza incógnita.

Sinto-me a decompor!

Apercebo-me que a substância que me prende, é a mesma que me consome. Demorei algum tempo a aperceber-me que o odor a putrefacção era o meu corpo em dissolução cadavérica quem o libertava. Nem mesmo a perda de um dos membros me fez suspeitar dessa fatalidade, até que o processo letal começou a atingir os meus órgãos vitais.

A respiração tornou-se irregular e penosa. Cada inspiração era interrompida por uma dor dilacerante que me fazia entrar num delírio momentâneo, durante o qual me via deitada numa superfície fria e metálica, onde o meu corpo era trespassado por uma lâmina afiada de um talhante.

Inevitavelmente, o coração foi atingido por esse processo insidioso. O batimento cardíaco lenificou. De tempo a tempo ouço uma batida, um eco distante, silencioso.

Sinto que o fim está próximo!

Não tardará muito até ceder às encruzilhadas da teia que me encarcera.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Hoje vi-te!

(Fotografia: Exposição Munõz-Uma retrospectiva [Museu Fundação Serralves, Dez08])
Hoje vi-te.

Pelo menos permanece em mim essa certeza quase dúbia. Fecho os olhos e a tua imagem surge num flash momentâneo, sem que perdure o tempo suficiente para confirmar se eras mesmo tu.
Que se dane! Seja como for, hoje vi-te!

Ias no outro lado da estrada, junto ao passeio. Envergavas um casaco escuro, jeans a condizer e aquelas sapatilhas pretas, gastas pelo uso e que teimas em continuar a calçar, por serem as tuas preferidas. Anuído pelas evidências, ainda ponderaste adquirir outras, do mesmo modelo, mas a fábrica deixou de o comercializar, por ser antiquado, démodé.
Já te tinha tentado alertar para esse facto, quando te disse que o meu avô teve um par igual no auge da sua juventude. No entanto, nenhum argumento conseguia persuadir-te a deixar de usá-las.

[Era isto que apreciava em ti! A forma como defendias as tuas ideias e convicções. Com a persistência confundida com teimosia e presunção.]

No instante em que te vi o vendaval domava o teu cabelo naturalmente desalinhado, as tuas mãos protegiam-se no interior do casaco, as tuas pernas avançavam a passo firme, enquanto eu me tentava equilibrar no tumulto dos meus pensamentos. Os mesmos que me impediram de te ver, mas não de sentir a tua presença.

Real ou imaginada?

Seja como for,hoje vi-te!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mito convertido em realidade

Um grupo de investigadores chegou à conclusão de que, afinal, é possível encontrar acesa a chama da paixão ao fim de muitos anos de relacionamento, feito que apenas congratula um em cada dez casais.
Perante este facto a RTP foi à rua e entre as entrevistas realizadas destaco uma de particular interesse concernente a um senhor de idade avançada, a quem se questionou se ainda amava a sua esposa, ao que ele respondeu, conforme esperado, afirmativamente.
A revelação que se seguiu pode, futuramente, vigorar numa daquelas listas divulgadas por revistas de "destaque cultural",
(sempre úteis: "10 sinais de que ele/a lhe anda a trair", "como o/a deixar louco/a em 10 passos") ,
sob o título "10 características que deve perscrutar no/a parceiro/a para se assegurar que a paixão se conservará em labareda fulminante por muitos anos".
Muitos de vós estarão, provavelmente, a pensar na fidelidade, naquela pessoa que revisita os nossos pensamentos...pois, enganam-se.

A sabedoria partilhada por aquele senhor, inspirada nas características da sua esposa, com quem mantém, ainda, segundo ele, acesa a chama da paixão, revela-nos que, em primeiro lugar, devemos procurar alguém "trabalhador".

[Ora, se a relaçao é para durar, é de bom grado que a outra pessoa se sustente. Numa vida inteira a sustentar alguém a única chama que deverá permancer ateada será aquela que deseja, ardentemente, calcinar o outro.]

Adicionalmente, e não menos importante, a pessoa amada deverá reunir em si as apaixonantes características de "limpa e asseada".

[Com mau cheiro, "não há amor que sempre dure, nem chama que nunca apaga".]